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segunda-feira, 16 de março de 2015

OS MITOS DO ECOMUSEUS : entre a representação e a realidade dos museus comunitários

RESENHA
OS MITOS DO ECOMUSEUS : entre a representação e a realidade dos museus comunitários
 
Rogerio Carlos Petrini de Almeida[1]
 
Bruno Cesár Brulon Soares: Bacharel em Museologia (2006), licenciado e Bacharel em História (2011) pela UNIRIO, Mestre em Museologia e Patrimônio – UNIRIO – (2008), Dr. Pelo programa de Pós –Graduação em Antropologia  - UFF (2012), Prof. Curso de Museologia da UNIRIO. Vice Presidente do ICOFOM (2013), membro do corpo editorial das revistas Musear, Jovem Museologia e Museology and Cultural Heritage.
Palavras-chave: Ecomuseus. Museus. Comunidade. 
 
O autor nos traz uma série de ideais de Riviére, Varine, Desvallées, nos primórdios da formação dos ecomuseus, como fenômeno descentralizador dos museus Franceses. Refere-se que os ecomuseus nascem no discurso da nova museologia, movimento que surgiu na Franca em 1982, e que rompe com o norte posto pela museologia tradicional.
Um dos objetivos proposto para os ecomuseus era o de permitir que a memória recolhida pelos etnólogos fossem restituída ao conjunto do grupo  da comunidade pertencente ao ecomuseu, através de diversos instrumentos sendo a exposição de objetos materiais  uma possibilidade mas não um requisito.
 Hugues de Varine deu origem ao termo ecomuseu, em 1971, com a intenção de ligar o museu ao meio ambiente. Neste mesmo ano surge o Museu Creusot Mont cesu-les-Mines, como primeiro ecomuseu. Em 1972 o ecomuseu tem sua definição por Jean Blanc como “museu específico do meio ambiente” que funcionava como “elemento de conhecimento” de um conjunto de relações no espaço através do desenvolvimento histórico dessas relações. Em 1973 Riviére caracteriza o ecomuseu como museu ecológico um instrumento de informação e de tomada de consciência da qual a população participa. Um tipo de museu ligado aos parques franceses que poderia tomar diversas formas. Define por fim que se trata de um museu laboratório, conservatório e escola relacionado a diversidade da população. Refere-se que “(...) o ecomuseu é previsto como um meio pelo qual as populações podem se tornarem, elas mesmas, objeto de sua investigação (...)”. A interação das pessoas com elas mesmas que se ligam por uma memória, uma história e um patrimônio.
Há um emprego de museu maleável, evolutivo por definição, baseado num modo de organização original permeando poderes locais e dos organismos de estado. Os ecomuseus são previstos como um meio pelo qual os componentes e a comunidade pode se tornar ela mesma objeto de estudo e um instrumento de autoconhecimento e de produção de conhecimento sobre ela própria.
O autor refere-se que os objetivos do artigo é identificar, na origem da concepção do ecomuseus, na França, o que chama de mitos fundadores voltados para a história deste tipo de museus e a realidade atual, museus comunitários, e como são percebidos pelo público.
O autor evidencia e debate cinco mitos centrais e como mito uma simbologia uma generalidade que se deve admitir ou que se possa supor como real.
O mito da institucionalização que disseminou a noção de que os ecomuseus são realidade e não uma representação institucionalizada do real, que o ecomuseu apresenta o cotidiano à própria comunidade que a vivência. A relação objeto sujeito é diferenciada do museu tradicional e a presença de coleções permanente de objetos musealizados  não ganha força e objetos são musealizados in situ com relação acontecendo dentro da comunidade, dentro do grupo. A institucionalização estaria dissociada dos ecomuseus, no entanto, a busca de legitimação e normalização do ecomuseus encontrou dificuldades pela falta de elementos para seu reconhecimento pelo Estado Francês, face ao distanciamento das características dos museus tradicionais. A associação do ecomuseu, ao meio ambiente e a ecologia promoveu condições de ser entendido como instituição por estar voltado a compreensão da comunidade. A ideia de um patrimônio comunitário e coletivo permite que o ecomuseu deixe a primeira missão, a da aquisição, estabelecida pelos museus comuns, esquecida ou relegada a um segundo plano. As práticas museológicas dos ecomuseus podem ou não ser análogas aos do museu comuns o que a difere é a participação da comunidade nas experiências do museu.
 Em segundo lugar o autor se refere ao mito da comunidade, que nasce com fundamentos de Hugues de Varine de que “o instrumento essencial de concepção, de programação, de controle, de avaliação do museu seria um conselho de associação composto de representantes que seriam, em sua maioria, habitantes da comunidade urbana.” O ecomuseu é definido por uma comunidade e um objetivo, em vez de uma coleção definida de objetos. Os termos para esta tipologia de museu ampliam-se de ecomuseus, ou museus comunitários, ou museus sociais, ou museus locais, musealização ideais e ideias de comunidade. È acomunidade como um mito de definição complexa perante a necessidade de um tipo de socialidade, para a coeção ou delimitação do grupo. A noção de comunidade que idealiza este tipo de museu, que musealizam pessoas ou coisas e as ideias. O que difere dos museus tradicionais é o conjunto de vontades sociais.
 O mito do público começa a ser estabelecido pela hipótese de que não teria visitantes, mas atores segundo Hugues de Varine. A comunidade atua como gestores e público, portanto, ecomuseu não seriam feitos para visitantes, apenas para a comunidade. Porém a visitação de público externo surge e estão presente na abordagem do ecomuseu. A constituição de um patrimônio histórico com exposição de acervo sugere à visitação de um público estranho a comunidade. A presença de um público é um pré-requisito para a representação do cotidiano musealizado e a própria comunidade deve se fazer público e como atores estão inseridos na vida social e na representação cultural.
 Outro mito colocado pelo autor é o mito da participação em que o ecomuseu conduz para museologia participativa, onde recebe a participação da comunidade como seus atores, em suas ações. “O ecomuseu nasce de uma análise precisa da comunidade, em sua estrutura, em sua relação, em sua necessidade”, Hugues de Varine. O mito da participação é o enfrentamento de engajar as pessoas em sua própria musealização inventada. O ecomuseu foi criado como instrumento de desenvolvimento comunitário e como forma de mudança e de mobilização do grupo, porém com lideranças centralizadas.
O mito da democratização, último mito colocado pelo autor, em que o ecomuseu é um modelo essencialmente democrático, sem questionamento de comunidade ou motivo de sua atuação musealizada. A ação cultural é descentralizada em diversos pontos da comunidade, porém o conjunto comunitário total é objeto de estudo sobre a comunidade base. A democratização de saberes, práticas e representação permanece nas ações dos ecomuseus, com a noção de inclusão e participação.
Nas considerações o autor comenta que os ecomuseus não foram entendidos como espaços de representação, e sim definidos como museus específicos do meio-ambiente, demonstrando que seu objeto não eram as “coisas e a pessoa,  mas as relações sociais que envolvem coisas e pessoas em todos os aspectos” valorizando os atores de patrimonialização da comunidade base. Reflete que na atualidade há um abandono do ideal original, predominância de gestores com rompimento dos atores locais, muitos dos ecomuseus se voltam ao turismo, com foco no público externo e o museu sobrevive pela vontade de certos atores que mantém o teatro das identidades.
Podemos dizer que os mitos da construção dos ecomuseus nascem de ideias de um museu comunitário participativo, com ausência de visitantes, constituído dentro de uma comunidade básica, com interesse de provocar seu desenvolvimento. A sua evolução provoca discrepância e alguns preferem a busca de uma institucionalização, a participação de público externo, com promoção de turismo, constituição de exposição e acervo permanente, aproximando-se das práticas dos museus tradicionais e afastando-se das ideias primários de ser  um museu comunitário participativo de inclusão e desenvolvimento local, não feitos para visitantes e onde se musealizam ideias.
 
 
REFERÊNCIA
 
SOARES, Bruno Cesár Brulon. Os mitos do ecomuseus: entre a representação e a realidade dos museus comunitários. Revista Musas, Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.6, p. 30-46,  2014.
 
 
 


[1] Aluno do Curso de Museologia – FABICO / UFRGS. Trabalho realizado como pré-requisito para avaliação parcial da disciplina Teoria Museológica (BIB03239), ministrada pela Professora Ana Carolina Gelmini de Faria. Porto Alegre, mar. de 2015. E-mail: rogériopetrini@gmail.com.
 

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